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segunda-feira, 15 de abril de 2013

O PERDÃO É UMA PRÁTICA DE CURA (Jean Yves Leloup)





O perdão, quando bem compreendido, é um instrumento de cura. Frequentemente ficamos doentes porque não perdoamos e o rancor e a cólera nos corroem o fígado e os rins. A questão é como manter juntos o perdão e a justiça, o olho da verdade e o olho da misericórdia.


Creio que não devemos perdoar muito rápido. É necessário, antes de perdoarmos, que expressemos o sofrimento pelo que nos foi feito e a isso chamo justiça. O sinal-da-cruz, tal como era feito nos doze primeiros séculos de nossa era, expressava bem esse sentimento. Começava-se por uma linha vertical, da testa ao peito, em seguida levava-se a mão ao ombro direito e depois ao esquerdo (atualmente faz-se o contrário), simbolizando a passagem da justiça para a misericórdia. Começando sempre pela justiça, exigindo que fosse reconhecido o mal que foi feito, o inaceitável de certas situações e de certas violências. Portanto, o pedido de justiça é essencial. Mas é essencial, também, ir além da justiça, em direção à misericórdia, em direção ao perdão, em direção ao lado que é o lado do coração.


O que é o perdão? O perdão é não aprisionar o outro nas consequências negativas de seus atos. É não nos aprisionarmos ou aprisionarmos o outro no carma. O perdão é a própria condição para que nossa vida continue a ser vivível. Se não perdoarmos uns aos outros, a vida vai se tornar impossível de ser vivida.


Como fazer para que este perdão se torne algo verdadeiro? Platão dizia: “Aquele que tudo compreende, tudo perdoa”. Aquele que se conhece a si mesmo, com suas ambiguidades, pode compreender o outro em suas sombras. Portanto, inicialmente, o perdão pode ser uma questão de inteligência, de compreensão. Perdoar você significa que eu o compreendo, mas não quer dizer que o que você fez é bom. Compreendo que você é um ser humano, que é capaz de me enganar como eu próprio faria se, provavelmente, estivesse nas mesmas condições.

A atitude de Cristo aos que queriam lapidar a mulher adúltera é: “Aquele que estiver sem pecado atire a primeira pedra”. Lembrem-se como aos poucos todos se retiram, do mais velho ao mais jovem. Nesse caso Jesus se serve da Sagrada Escritura, não para mostrar aos outros como eles são pecadores, mas para fazê-la de espelho onde eles podem ver suas fraquezas, suas falhas e compreender as dos outros, não os aprisionando nas consequências negativas de seus atos.


Além de perdoar com a cabeça é preciso perdoar com o coração e, vocês sabem, o corpo é o último que perdoa. Se alguém lhes fez mal, se lhes causou sofrimento, vocês podem tê-lo perdoado com a “cabeça”, tê-lo compreendido com o coração, pensar que o passado passou. Entretanto, quando essa pessoa se aproxima, seu corpo se crispa e se enrijece mostrando bem que ele ainda não perdoou, que muitas memórias estão ainda bem guardadas.

Creio que é verdadeiramente uma graça quando nos encontramos perto de alguém que nos tenha feito mal e sentimos nosso corpo calmo, nosso coração límpido. Podemos dizer que, verdadeiramente, estamos curados. Por isso, creio que o perdão é uma prática de cura.


No Pai-nosso se diz: Perdoai-nos do mesmo modo como perdoamos. Como se o dom da vida só pudesse circular em nós dependendo de nossa capacidade de perdão. Se não perdoamos ficamos prisioneiros, bloqueados em uma situação, em um rancor, e a vida não pode circular.



Perdoar não é fácil.



Quando eu era jovem padre e morava no interior da França, todos os domingos levava uma senhora paralítica à missa. Ela era portadora de esclerose em placas. Um dia contou-me do ódio que nutria pela mãe porque a tinha impedido de casar-se com o homem que amava, e, apesar disso, passara a vida inteira cuidando da mãe, ocupando-se dela. Apesar de exteriormente comportar-se como uma mulher respeitável e admirável, dizia-me que em seu interior só havia raiva. A dureza de seu coração impregnara seu corpo, transformando-o em corpo rígido e paralisado. Assim, as doenças psicossomáticas têm, às vezes, uma origem espiritual.


Disse a esta senhora: “Já que você é cristã pode perdoar sua mãe”. Tornou-se encolerizada e, com uma raiva muito densa e muito íntima, respondeu-me: “Não, não, jamais a perdoarei. Minha mãe impediu-me de viver, o que sinto por ela é um veneno que levarei ao túmulo”. Neste momento compreendi o meu erro e lhe disse: “Você tem razão. O que você viveu é imperdoável. Você não pode perdoar quem a impediu de viver. Mas pense, creia, o Cristo que existe em você pode perdoá-la”. Atualmente eu lhe diria: “O ego não pode perdoar: Não se deve tentar perdoar com o ego. Entretanto, talvez o self possa perdoar. Talvez haja dentro de nós uma dimensão maior que nós mesmos, que pode compreender e perdoar”. Passaram-se cinco longos minutos. Em dado momento vi uma lágrima correr pela face daquela senhora. Ela chorou, chorou muito. Levantou-se da cadeira de rodas e saiu andando de seu quarto. Há mais de quarenta anos não chorava, há mais de dez anos não andava. Esse é o milagre do perdão.


Muitas vezes, está acima de nossas forças perdoarmos a partir de nosso pequeno ego. Se disséssemos “eu te perdoo”, seríamos hipócritas, pois nosso corpo e nosso coração não conseguem perdoar. Porém, podemos abrir-nos a uma dimensão mais vasta que nós mesmos e então o perdão pode chegar.


O perdão não é humano, é um ato divino. Quando Jesus perdoa, seja a mulher adúltera, seja Miriam de Magdala, seja um “colaborador” como Zaqueu, os fariseus que o cercam se perguntam: “Quem é este homem que perdoa? Pois só Deus pode perdoar”.
Jean-Yves Leloup, doutor em Psicologia, Filosofia e Teologia, escritor, conferencista, dominicano e depois padre ortodoxo, oferece através dos seus livros, conferências e seminários um aprofundamento dos textos sagrados, assim como uma abordagem e uma reflexão extremamente ricas sobre a espiritualidade no quotidiano graças à uma formação pluridisciplinar de rara complementaridade. 

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Sim à Espiritualidade e não a Religiões


[e-mail recebido a muito tempo e copiado na íntegra...]
"Espetacular lição para muitos que se dizem "cristãos" e esquecem o maior mandamento/ensinamento do Cristo. Parece mentira, mas foi verdade. 
No dia 1°/Abr/2010, o elenco do Santos – atual campeão paulista de futebol – foi a uma instituição que abriga trinta e quatro pessoas. O objetivo era distribuir ovos de Páscoa para crianças e adolescentes, a maioria com paralisia cerebral. Ocorreu que boa parte dos atletas não saiu do ônibus que os levou. Entre estes, Robinho (26a), Neymar (18a), Ganso (21a), Fábio Costa (32a), Durval (29a), Léo (24a), Marquinhos (28a) e André (19a) – todos ídolos super-aguardados. O motivo teria sido religioso: a instituição era o Lar Espírita Mensageiros da Luz, de Santos-SP, cujo lema é “Assistência à Paralisia Cerebral“. Visivelmente constrangido, o técnico Dorival Jr. tentou convencer o grupo a participar da ação de caridade. Posteriormente, o Santos informou que os jogadores não entraram no local simplesmente porque não quiseram. Dentro da instituição, os outros jogadores participaram da doação dos 600 ovos, entre eles, Felipe (22a), Edu Dracena (29a), Arouca (23a), Pará (24a) e Wesley (22a), que conversaram e brincaram com as crianças. Eis que o escritor, conferencista e Pastor (com “P” maiúsculo) ED RENÉ KIVITZ, da Igreja Batista de Água Branca (São Paulo), fez uma análise profunda sobre o ocorrido e escreveu o texto “No Brasil, futebol é religião”, que abaixo tenho o prazer de compartilhar.
No Brasil, futebol é religião” – por Ed Rene Kivitz 
Os meninos da Vila pisaram na bola. Mas prefiro sair em sua defesa.
Eles não erraram sozinhos. Fizeram a cabeça deles. O mundo religioso é mestre em fazer a cabeça dos outros. Por isso, cada vez mais me convenço que o Cristianismo implica a superação da religião, e cada vez mais me dedico a pensar nas categorias da espiritualidade, em detrimento das categorias da religião. 
A religião está baseada nos ritos, dogmas e credos, tabus e códigos morais de cada tradição de fé. 
A espiritualidade está fundamentada nos conteúdos universais de todas e cada uma das tradições de fé.
 
Quando você começa a discutir quem vai para céu e quem vai para o inferno; ou se Deus é a favor ou contra à prática do homossexualismo; ou mesmo se você tem que subir uma escada de joelhos ou dar o dízimo na igreja para alcançar o favor de Deus, você está discutindo religião. Quando você começa a discutir se o correto é a reencarnação ou a ressurreição, a teoria de Darwin ou a narrativa do Gênesis, e se o livro certo é a Bíblia ou o Corão, você está discutindo religião. Quando você fica perguntando se a instituição social é espírita kardecista, evangélica, ou católica, você está discutindo religião. 
O problema é que toda vez que você discute religião você afasta as pessoas umas das outras, promove o sectarismo e a intolerância. A religião coloca de um lado os adoradores de Allá, de outro os adoradores de Yahweh, e de outro os adoradores de Jesus. Isso sem falar nos adoradores de Shiva, de Krishna e devotos do Buda, e por aí vai.
E cada grupo de adoradores deseja a extinção dos outros, ou pela conversão à sua religião, o que faz com que os outros deixem de existir enquanto outros e se tornem iguais a nós, ou pelo extermínio através do assassinato em nome de Deus, ou melhor, em nome de um deus, com ‘d’ minúsculo, isto é, um ídolo que pretende se passar por Deus.
Mas, quando você concentra sua atenção e ação, sua práxis, em valores como reconciliação, perdão, misericórdia, compaixão, solidariedade, amor e caridade, você está no horizonte da espiritualidade, comum a todas as tradições religiosas. E quando você está com o coração cheio 
de espiritualidade, e não de religião, você promove a justiça e a paz.
 
Os valores espirituais agregam pessoas, aproxima os diferentes, faz com que os discordantes no mundo das crenças se deem as mãos no mundo da busca de superação do sofrimento humano, que a todos nós humilha e iguala, independentemente de raça, gênero, e inclusive religião. 
Em síntese, quando você vive no mundo da religião, você fica no ônibus. Quando você vive no mundo da espiritualidade que a sua religião ensina – ou pelo menos deveria ensinar, você desce do ônibus e dá um ovo de páscoa para uma criança que sofre a tragédia e miséria de uma paralisia mental.
Ed René Kivitz, cristão, pastor evangélico, e santista desde pequenininho. "

sexta-feira, 24 de junho de 2011

TROVADORES NA FESTA

É São João em todo o Brasil. É São João em TODO o Nordeste.
Neste período alguns espíritas falam na não comemoração de tais festejos, expondo que: "tais comemorações não devem adentrar-lhe a intimidade." ou que "honrar o templo espírita é preservar o Espiritismo contra os programas marginais, atraentes e aparentemente fraternistas, mas que nos desviam da rota legítima para as falsas veredas em que fulguram nomes pomposos e siglas variadas."
Não vou aqui levantar nenhuma bandeira, nem discorrer sobre o assunto, pois ainda tenho que acender a fogueira. Em outro momento a gente conversa sobre a importância do diálogo entre a religião e a vida. Quando digo vida, falo do mundo, da carne, do mecanismo ainda necessário para todo e qualquer um mero passageiro deste gigante ônibus chamado planeta terra.
Ah, antes do "anarriê", deixo alegria, paz e bem:


TROVADORES NA FESTA



Dão licença, meus irmãos,

Dão licença em confiança,

Porque também nós queremos

Participar da festança.

Formiga

*

Neste arraiá de Jesus

Tristeza não tem lugar.

Quem tenha pranto nos olhos

Faça o favor de enxugar.

Clóvis Amorim

*

No salão embandeirado,

Comandando o arrasta-pé,

Segue à frente, braços dados,

A Caridade com a Fé.

Dalmo Florence

*

Entre os pares da “quadrilha”

Eu me ajeito de carona,

Que não posso ficar quieto

Ouvindo o som da sanfona.

Cego Aderaldo

*

Não consegue ficar quieto?!

Então sou eu e você,

Que só de ver a sanfona

Vou gritando balancê...

Zé da Luz

*

Alto lá que é a minha vez...

Quero um gole de quentão,

Para matar a saudade

Que vive em meu coração...

Catulo

*

Que o quentão seja servido

Numa caneca furada,

Pois muita gente já é

De natureza esquentada...

Cipriano Jucá

*

Óia o caminho da roça...

Óia a cobra... Invém a chuva...”

Para que seja o meu par

Eu procuro uma viúva.

Corrêa Júnior

*

Joga lenha na fogueira,

Não deixe que ela se apague...

Preciso de uma morena

Que me beije e que me afague.

Lúcio Mendonça

*

E que viva Santo Antônio,

O santo casamenteiro,

São Pedro, São João Batista

E mais algum futriqueiro...

Rogaciano Leite

*

Perdoem nossa alegria...

Tudo é paz, amor e luz.

Tristeza não tem lugar

Neste arraiá de Jesus.

Formiga




Livro: Dor e Luz

Carlos A. Baccelli, pelo Espírito Eurícledes Formiga
IDE – Instituto de Difusão Espírita

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Ausentar-se.

O ato de se tornar ausente pode ser interpretado por diversos prismas.

Uma pessoa pode ausentar-se para se preservar de uma situação. Não estando nela, seja física ou espiritualmente, podemos nos poupar de desgastes desnecessários ou de agressões dirigidas a nós simplesmente porque estávamos no caminho. É o tal do "saber tirar o time de campo".

Por outro lado, às vezes nos ausentamos sem perceber. Paramos de dar o sorriso matinal, de fazer nossa obrigação no trabalho doméstico, de orar antes de dormir...

...paramos de nos perceber. Sabe? Nos ausentamos de nós mesmos!

Quando a vida parece pesada demais, quando o fardo nos parece injusto, quando o mundo parece estar contra nós, quando o chefe é um carrasco e você é uma vítima, quando as pessoas que amamos não nos dão atenção suficiente e temos que pedir carinho....

Pode notar: o que há de comum nessas cenas?
O ato de transferir a responsabilidade da nossa vida para outras pessoas e outras situações. Isso é muito perigoso, porque uma pessoa que não sabe quem é não consegue viver. Ela tristemente sobrevive. É um objeto da sociedade, e não agente da própria vida. É o tal do "ah, mas é assim mesmo... o que eu posso fazer? O sistema é assim."

Que sistema?
Então, se você é ranzinza, amargo, tristonho, o seu sistema é esse? Você se decretou (e pior, decretou a quem vive perto de você) essa condição, amigo.

Quem pode te ajudar a sair dela? Quais das alternativas você escolheria?

a) A Xuxa.
b) O chefe, se te der um aumento.
c) O companheiro ou companheira, se te valorizar mais.
d) Você.

Parece óbvio, né?
Desculpem o tom irônico, eheh... Não quero ofender ninguém, mas, antes, despertar. Não se ausente de você mesmo nunca, porque a junção da sua alma com o seu corpo é única e maravilhosa, e você tem dons que ninguém mais tem. Você é muito bom em, pelo menos, cinco coisas. Você pode inspirar lindamente os que te cercam.

"Presencie-se". Sempre e da melhor forma.
Boa semana a todos!

[Desculpem o longo período sem postagens. Ele aconteceu justamente porque me ausentei de mim, só que hoje foi um dia muito especial na minha retomada pessoal e resolvi marcá-lo com essas palavras que passaram a semana ecoando na minha mente]